Misael tocou-lhe a face com os dedos trêmulos, mas esta se desfez em fumaça que se alargava ao ar e se dispersava unindo-se a ele e não mais existindo. Ele gritou curvando-se, um grito que lhe arrancava espadas e lanças da garganta e rios e mares de sangue dos olhos. Os cabelos grudados à pele queimavam-se no mesmo tom rubro. O corpo todo parecia consumido em puro ódio. Sentiu o baque sobre as asas e a dor descomunal e lacerante que pareciam moer as mesmas em uma espécie de máquina trituradora. O corpo era lançado ao chão como se pisoteado por uma manada de animais pesados, a testa era coberta do pó da terra e os olhos eram cegados fatalmente por ele... Estava na hora de desistir... As mãos eram inexplicavelmente algemadas a terra com a palma para cima assim como os pés separados um do outro. A dor era de estacas sendo cravadas ao meio das mãos e pés. O Anjo agonizava e preso lançava o corpo para cima na tentativa de livrar-se do que lhe causava tanta dor e agonia... De entre os dentes o grito escapava-lhe, a língua amaciada tornava-se rija... A cabeça freneticamente balançava de um lado para o outro.
- DEIXE-ME SAIR!!
Tivera todas as oportunidades do mundo para falar e inutilmente brigava contra uma força sobrenatural muito maior que seu próprio poder, sua própria liberdade.
Tudo a sua volta era circundado por um negrume absurdamente terrível e era como se os olhos estivessem fechados agoniados em abrir, como se costurados e pungentes e nada pudesse abri-los novamente. Os grãos de areia os cortavam e agora se pode imaginar o quão cruciante era.
- Deixe-me ir... Deixe-me ir...
Gastava o som da voz, de nada serviria... A lufada de vento se tornava ainda mais impetuosa, ainda mais poderosa, arrastava consigo as penas ensangüentadas para longe... O corpo do anjo parecia uma pena alvíssima sobre uma poça gigante de sangue, ela queria desprender-se, mas até então era impossível...
- Eu... Eu arrependo-me... Arrependo-me!
O chão era solto sob o corpo inerte de Misael, ele caia... Uma queda infinita que lhe trazia a mente o rosto materializado de um ser, e ele podia toca-lo novamente, pois os membros já poderiam aquietar-se...
Um suspiro, um sussurro... Um ambiente que se transformava... Havia neve, neve sobre a copa das árvores e um lago petrificado no qual Misael tentava reergue-se, fincar os pés e cambalear o corpo nu e friorento... Caminhar talvez, o importante era manter-se de pé... As asas novamente encurvavam, duas vezes maiores que o próprio corpo, franzino e débil... Ele não percebera, mas as feridas externas estavam cicatrizadas, os membros expurgados e tudo que lhe formava... Limpo e branco.
Mas o coração... Este sim mergulhado em desventura doía como a longas e incansáveis alfinetadas, profundas e indestrutíveis. Novamente os joelhos encontraram-se com o gelo... Os olhos embebidos em sentimento contemplavam o céu coberto de nuvens pesadas de chuva, escuras e cevadas, imponentes... Era hora de desistir... Era hora... Antes que fosse tragado finalmente... Era hora...
- Seja feita a vossa vontade...
E tudo a sua volta sumia como fumaça ao Vento...
